Você sabe como escrever uma carta no vestibular?

Há alguns anos, quando comecei a lecionar, falávamos muito da carta nas aulas de produção de texto, mas com o desenvolvimento do Enem, seu uso por parte das principais faculdades do Brasil e um foco maior na modalidade dissertação, a carta acabou ficando em segundo plano. Na verdade, pouco se usa. Recentemente, no entanto, ao desenvolver um projeto de troca de correspondências para melhorar a escrita e torná-la mais significativa para meus alunos de Ensino Fundamental, acabei por retomar com mais força esse gênero textual e compartilho aqui um pouco sobre isso.

Inicialmente, é preciso destacar dois tipos básicos de carta.

O primeiro é a correspondência oficial e comercial, enviada pelos poderes públicos ou por empresas privadas (avisos bancários, cobranças, ofícios, ofertas, convites, malas diretas etc). Esse tipo de carta se caracteriza por seguir modelos prontos, em que o remetente só altera alguns dados. Apresentam uma linguagem padronizada (repare que as cartas são extremamente parecidas) e normalmente são redigidas em linguagem formal. Mesmo que venham assinadas por uma pessoa física, o emissor é a pessoa jurídica (órgão público ou empresa privada), no caso, devidamente representada por um funcionário.

O segundo é a carta pessoal, aquele tipo de correspondência que é utilizada para estabelecer contato com amigos, parentes, namorado(a), para externar opiniões em órgãos de imprensa. Tais cartas não seguem modelos prontos. Nesse caso, o remetente é a própria pessoa que assina a correspondência.

Embora você possa encontrar por aí livros que tragam “modelos” de cartas pessoais (principalmente “modelos de carta de amor”), fuja deles: geralmente trazem uma linguagem artificial, surrada, repleta de expressões desgastadas, além de serem completamente ultrapassados. Veja um exemplo retirado de um desses sites:

gênero textual carta modelo vestibular

Não há regras fixas (nem modelos) para se escrever uma carta pessoal. Afora o local, a data, o nome (ou apelido) da pessoa a quem se destina e o nome (ou apelido) de quem a escreve, a forma de redação de uma carta pessoal é extremamente particular.

No processo de comunicação (e a correspondência é uma forma de comunicação entre pessoas), não se costuma falar em linguagem correta, mas em linguagem adequada. Ou, em outras palavras: linguagem correta é aquela que está adequada ao assunto tratado (mais formal ou mais informal), à situação em que está sendo produzida, à relação existente entre os interlocutores (a linguagem que você utiliza com um amigo íntimo é bastante diferente da que utiliza com um parente distante ou mesmo com um estranho).

Assim, uma carta a um parente distante comunicando um fato grave ocorrido com alguém da família apresentará, evidentemente, uma linguagem mais formal. Já uma carta ao melhor amigo comunicando a aprovação no vestibular terá uma linguagem mais simples e descontraída, sem formalismos de qualquer espécie.

Dois erros comuns na escrita de cartas


As expressões surradas

Se vocês repararam, falei, lá nos parágrafos iniciais deste artigo, sobre expressões surradas.
Na produção de textos, devem ser evitadas frases feitas e expressões surradas (os chamados clichês), como “nos píncaros da glória”, “silêncio sepulcral”, “nos primórdios da humanidade” etc. Na carta, não é diferente. Fuja de expressões conhecidas e gastas, que já apareceram em milhares de cartas, como “Escrevo-lhe estas mal traçadas linhas” ou “Espero que esta vá encontrá-lo gozando de saúde” (originais, não?).


A coerência no tratamento

Na carta formal, é necessária a coerência no tratamento. Se a iniciamos tratando o destinatário por tu, devemos manter esse tratamento até o fim, tomando todo o cuidado com pronomes e formas verbais, que deverão ser de segunda pessoa: te, ti, contigo, tua, dize, não digas etc. Caso comecemos a carta pelo tratamento você, o tratamento em terceira pessoa deve ser mantido até o fim: se, si, consigo, o, a, lhe, sua, diga, não diga etc.

Observe um exemplo que encontrei num de meus livros usados como material de apoio para estas aulas de Produção de Textos. Nele, percebe-se que não há coerência no tratamento:

Você sabe, nos dia de hoje, possuir um seguro de vida é essencial para a proteção de tua família, por isso estamos te contactando para lhe apresentar a anexa proposta de seguro.

Nesse fragmento, não há uniformidade de tratamento: começa-se por você (terceira pessoa), passa-se para a segunda pessoa (tua e te) e, no final, volta-se para a terceira (lhe).

Ainda com relação à uniformidade, fique atento ao emprego de pronomes de tratamento como Vossa Senhoria, Vossa Excelência, entre outros. Embora se refiram à pessoa a quem nos dirigimos, esses pronomes devem concordar na terceira pessoa. Veja mais um exemplo retirado dos meus arquivos pessoais:

Vimos à presença de Vossa Senhoria com a intenção de solicitar-lhe o seu “de acordo” à proposta que lhe enviamos anteriormente.

Proposta de redação de carta

Chegou a hora de dizermos “mãos à obra”, pessoal. Estes modelos de atividade usei e uso com bastante frequência nas séries iniciais do Ensino Fundamental II. Geralmente eles não têm dificuldade em executá-las e, para o professor, é uma excelente oportunidade de avaliar como anda o uso dos elementos constitutivos da carta.


Proposta de produção de carta (1)

Redija uma carta com base nos seguintes dados:

Remetente: você.

Destinatário: um ex-colega de classe que está morando há um ano no exterior.

Assunto principal: dar notícias sobre o que de importante ocorreu no Brasil depois que seu ex-colega deixou o país.


Proposta de produção de carta (2)

Agora, sua carta deve basear-se nos seguintes dados:

Remetente: você.

Destinatário: diretor de uma empresa jornalística.

Assunto principal: solicitar uma visita à empresa para ver como é feito um jornal, já que você e seus colegas têm interesse em prestar vestibular para ingressar numa faculdade de jornalismo.

 

Quer ir mais longe?

A carta é apenas um dos gêneros textuais que aparecem nos vestibulares. A Unicamp continua pedindo esse e outros gêneros textuais. Para conhecê-los, elaborei para vocês um módulo inteiro apenas sobre os gêneros textuais mais usados nos vestibulares. Tudo isso está na novíssima plataforma do curso português Pra Passar 2.0. Nela você terá acesso aos materiais que têm ajudado meus alunos a passar nos mais difíceis vestibulares. Tudo mastigadinho e com mapas metais para revisão rápida porque eu também sei que ninguém tem muito tempo hoje em dia. Por falar nisso, não perca tempo porque não sei por quanto tempo teremos vagas para a área de membros do curso na versão 2.0.

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